« Desde o dia em que abrimos os olhos e vemos o rosto da nossa mãe, acho que o coração, por assim dizer, deixa de nos pertencer. É um chato que nos comove. É um traidor. É um independente. É um inquilino. »


Don't you shiver

Ai e quando a tua mão era a minha melhor amiga e me dizia que o meu coração era o seu lugar preferido. E eles conversavam... E eles chegaram a trocar lágrimas. Ai quando a tua mão era a minha realidade mais próxima. E eu tinha a certeza de a encontrar no vazio do silêncio. Eu sabia pelo toque da tua mão, a melhor maneira de te acordar, e a melhor maneira de fugir... Ai quando a tua mão me conhecia como a tua própria mão e não deixava escapar o meu coração. A tua mão...

And I see no chance of release


Como matamos a necessidade mais evidente? Como calamos a carência mais ruidosa?
A tentativa pode acabar. E depois da tentativa de tentar afogar as ausências, o que resta? Resta-nos a companhia usual. A partir de um momento, um momento, passas a esquecer-te da companhia preferida. 

Some things should be simple even an end has a start

Estavam deitados sobre os lençóis, ela tremia de frio. Ele abraçou-a, como reflexo. E depois ficaram calados pelo resto da manhã. Até ao momento em que ele, nos seus rasgos de maldade, decide vê-la chorar. Deve ser uma vontade, algo que ela nunca percebeu mas que quase sempre aparece sem ela poder controlar. E durante o momento em que ela chora, ela pensa em coisas tristes proibidas e ele ri-se, por dentro, por ter conseguido mostrar que a emoção é boa e que ele é o seu salvador. Quando ele desiste, ou quando ela chega à exaustão ele sente-se realizado como uma aura que lhe preenche por completo e ela promete, mais uma vez a si mesma, não voltar ali. No fim, as dúvidas levam a melhor e eles acabam abraçados.

She took my heart, I think she took my soul

E sais de cena com a tua ingenuidade pelo braço. Sempre me habituaste a esperar pela confiança de um abraço. Mas eu fiquei a ver-te partir desta vez. E agora não te vejo entrar de novo...

Saíste de cena, como eu sempre te pedi. E agora no pedido mais sufocante do silêncio, tu não cumpres. Mas eu fiquei à espera... E ainda sinto, por enquanto ainda consigo sentir, a tua falta.

Os bastidores são o meu maior medo.

I got a notion to say what doesn't feel right

Ah! Não me fales nada: antes me fala;
De tal maneira, que, se eu fora surdo,
Te ouvisse todo com o coração.

Fernando Pessoa, Primeiro Fausto

Someone hit the light 'cause there's more here to be seen

E de um momento para o outro dás conta de uma lágrima fugaz. Como se não tivesses tido tempo de parar, como se não tivesses tido tempo de conter. Pareces mais humana, agora. A solidão tornou-se uma alternativa menos acessível. Escondes bem fundo a alma mais desprovida. Ainda não consegues disfarçar o medo, ainda és surpreendida pela realidade. Porque hás-de dar sempre um ao três. Quando o mundo pára, és arrebatada por tudo o que alcançaste e por tudo o que és, mas que nunca descobriste.

And every street and avenue only one will lead me back to you

As rodas do carro começavam a tomar um ritmo impossível de acompanhar. Cada vez mais indefinidas. Desisti de tentar contar as árvores da paisagem. Comecei a escutar a música que tinhas escolhido, e pensei como costumava fazer. Pensei em ti, e em mim... De repente senti um aperto na mão que me davas, tinhas-te enganado a meter a mudança. Coincidência. Eu tinha-me enganado no pensamento, e então comecei a perder-me nessa ausência tão comum... Estava a pensar em nós.

Don't be scared, I'm not here for your heart

Não corras demasiado depressa. Eu não gosto do cansaço.
Não esperes. Eu não gosto de incansáveis.
Não esforces. Eu não gosto de fugir.
Não decidas assim. Eu não gosto de pensar.
E não finjas. Eu não gosto de chorar.

I'll be lonely and sad, you'll be strong and unmoved

Sabes, tenho medo daquilo a que a gente se habitua. Quando te foste embora, pensei que não iria ser capaz de dormir mais nenhuma noite inteira, sentindo o vazio ao meu lado, na cama. Pensei que iria andar os dias todos como que perdida e ausente, sem me conseguir concentrar em coisa nenhuma, hora a hora imaginando-te aí, tão longe, tão distraído com outras coisas, tão distante de nós. E, depois, dei-me conta de que me conseguia ir habituando. A dormir sem ti, a acordar de manhã e não te ver, a começar o dia sabendo que tu não irias estar presente, a ir-me deitar sem saber nada de ti. Habituei-me a criar outras rotinas, outra maneira de fazer as coisas, outros pensamentos com que ocupar a cabeça, outras distrações para me esquecer da tua ausência. Descobri que a distância cria distância - e não sei se isso é bom ou mau. Se é uma forma de defesa passageira ou se é uma habituação para sempre. Percebes o que eu quero dizer?
Miguel Sousa Tavares

I often think about where I went wrong

Aumentas o som do rádio para tentares de alguma forma afastar os pensamentos que insistem em perseguir a tua réstia de bravura. Mas és surpreendida. Os pensamentos não só não se afastaram como ainda tomaram posse dessa bravura. Agora estás tu a tentar baixar o som da rádio.

Had shut down half my mind just to steal the space you left behind

A cabeça começa lentamente a recolher à rotina, a ceder à tua ausência. E o coração desacelera à medida que os dias passam. A solidão invadiu espaços proibidos e o silêncio sufocou o impulso. O escuro tornou-se mais escuro, e foi nessa escuridão que te encontrei. Eras a lágrima que caía envergonhada, era o aperto desconcertante, eras a dor impertinente, eras a saudade que não percebia, eras a confiança delicada, eras a sensibilidade ao rubro... Eras tu em mim. A cabeça dói e o coração esconde-se.

And once again that rising sun is a droppin' on down

Agarrou-se a ela como se fosse a última vez, a última oportunidade. E apertou-a com força, como se por momentos tivesse perdido a noção da intensidade sensorial. Mas por momentos ele deixou-se levar pela sensação de vazio e de ausência que iria sentir à mesma hora do dia seguinte... Despediram-se, as suas almas despediram-se naquele momento, sem que dessem por isso. E ele via passar à sua frente, naquela noite, todas as vontades satisfeitas, todos os sorrisos descontrolados, todas os olhares calados, e todas as possibilidades disfarçadas. Pela primeira vez na vida sentiu medo, medo da distância dela. Adormeceu segredando-lhe ao ouvido, e durante essa noite, sem se aperceber, repetiu vezes sem conta ao ouvido dela esse segredo. E acordaram mais apaixonados do que podiam imaginar.

I see the sweet signs of defeat

Não, Pedro: aí é que nós pensamos e sentimos de forma realmente diferente. Tenho medo de uma coisa que tu não temes: que, depois de conhecer a liberdade, de ter viajado e vivido em países livres, não me volte a habituar a viver de outra maneira. Tenho medo que a liberdade se torne um vício, enquanto que agora é apenas uma saudade.

Miguel Sousa Tavares

And you just keep on getting closer

A delicadeza com que me tocavas de cada vez que me perdia no teu tempo...
Juntos perseguíamos a fronteira da intimidade.
E de cada vez que te tocava...
Juntos vivíamos o limite da capacidade de sentir.
O brilho com que me procuravas de cada vez que eu me escondia...
Juntos.

Heart skipped a beat

No need to come to me
When I can make it all the way to you
You made it clear
You weren't near
Near enough for me


Ao fechar os olhos é-nos permitido viajar por territórios desconhecidos, secretos, desejados, sem fronteiras sem vestígios. Evasão.
Ao fechar os olhos é-me permitido percorrer os teus pensamentos mais impuros, mais ingratos. Prometo-te muito de olhos fechados.
Ao fechar os olhos sou a melhor pessoa que alguma vez olhaste porque assim sei que não cedo aos medos da verdade - porque não os vejo.
Ao fechar os olhos a realidade foge. Tentação.

Quando abro os olhos, lá estás tu : olhas para mim como se fosse a última vez. E eu olho para ti como nunca antes o tinha feito... como se os meus olhos agora fechassem.

Somewhere far along this road, he lost his soul to a woman so heartless

A paisagem parecia seguir-te. Mas pela primeira vez não sentiste medo do instinto. O teu olhar nunca se encontrou com o dele, pelo menos assim tentaste. Não conseguiste empurrar a emoção... Mas fingiste tão bem. O vento era agradável, secava mais rápido as lágrimas contidas que te escorregavam pela cara. Não saberias explicar o porquê. Estavas a sentir... A sentir descontroladamente. E por momentos olhaste, muito rápido, para ele. Tornaste a procurar no horizonte a desculpa perfeita. Sem dares por isso o carro parou e tu sorriste para ele. E sem dares por isso a desculpa perfeita tinha surgido, ali, em frente aos teus olhos.

She always finds a way to find me

Vem comigo...
Persegue-me, por aqui, onde o nada é relevante.
E quando me perderes de vista,
Finge que sou eu
Que agora insiste em contar as passadas
Que tu cuidadosamente escolhes.
Eu sou aquela que tu jamais saberás ouvir.
Promete-me, agora, que no último momento irás olhar para trás
E fingir um sorriso...
Do refúgio onde me encontro, olho para ti...
Tu sem me veres...
E sim, eu continuo a pedir...
Vem comigo...


You know you never meant to but you do

I woke up feeling heavy hearted

Ainda olho para trás na esperança que apareças por entre a multidão.
A ausência é uma companhia ingrata, não deixa margens para pensar.
E no fosso do maior caos chega o medo.
Conforme o tempo, é mais fácil esconder.
Frágil.

Have a heart and try me

Aprendemos a ser fortes, a não ceder à mínima barreira. A frieza cerca-nos, quase a sufocar, ameaça-nos como uma corda ao pescoço. Leva a melhor de nós. Não assumimos emoções, coisa fraca essa das emoções. Construímos uma imunidade perante os traços de sensibilidade que por ventura detectámos. O orgulho cresce com a conquista árida. Nunca somos... Queremos!

Juntando a arritmia sem explicação. Juntando a irracionalidade inoportuna. Juntando o despropósito insconsciente. Juntando o prazer secreto. Juntando o descontrolo transitório. Juntando o medo insdicreto. Juntando a escuridão incoerente. Juntando o desconhecido...


O vazio apodera-se para tentar explicar que o amor (?) não compensa a incompreensão. Depois há os corajosos e depois há os cautelosos. Aprender a cuidar, no fim falta-nos aprender a cuidar.

Maybe none of us really understand what we've lived through, or feel we've had enough time.

Sim.


Podes dizer que sim.
Podes até servir-te com um sim.
Mas o sim nunca chega como devia.

Falta.


Falta o teu amor.
Não digas sim sem avisar.
O meu sim nunca é desprovido de confirmação.
O meu não é sempre certo.




«Não me prives de ti.»

A Time To Be So Small

Há coisas maiores na vida. Também acredito que o tempo acaba por ditar tudo: esquecimento, homenagem, carência, respeito, confiança... Somos concebidos para acreditar no amor: o amor é aquilo que ninguém sabe muito bem explicar o que é, ou como nos surge, ou mesmo quem é.
Há coisas maiores na vida. Há quem diga que não podemos controlar o que vêm. Acredito antes que o medo nos faz acreditar que sim. A credibilidade está na forma e não na certeza.

Há coisas maiores do que o amor, do que o tempo, do que o medo, do que a própria certeza. Doce ignorância.


Jamie Randall: (...) And the thing is, everybody just kind of accepted that. Like, "That's just Jamie." And then you!... Jesus. You. You. You didn't see me that way. I have never known anyone who actually believed that I was enough. Until I met you. And then you made me believe it, too. So, uh... unfortunately... I need you. And you need me.
Maggie Murdock: No I don't.
Jamie Randall: Yes you do.
Maggie Murdock: No I don't.
Jamie Randall: Yes, you do.
Maggie Murdock: Stop it, stop saying that.
Jamie Randall: You need someone to take care of you.
Maggie Murdock: No, I don't!
Jamie Randall: Everybody does.

I had to find you, tell you I need you And tell you I set you apart

Porque depois de tudo, o nada passa a ser preponderante. E porque eu só gosto de escrever em estados emocionalmente inexplicáveis, ou então quando me consegues criar uma névoa de incerteza sobre quase tudo aquilo em que os meus graus de certeza eram totais. Nada (aparentemente repleto de tudo) acaba sempre por me convencer da melhor maneira. Nada é sempre a melhor forma de te encarar. É por isso que nada acaba com nada. Nada. Nada com nada resulta em nada de melhor ou de pior. Sem tudo, não há explicações mais ou menos convincentes. Sem nada, só fica o golpe. Nada, é sempre a melhor maneira de te encarar. Nada depois de tudo?


Everything's in order in a black hole





O meu mundo não é como o dos outros. Quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angustia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade... sei lá de quê!



- Florbela Espanca

and we felt true

i like my body when it is with your
body. It is so quite new a thing.
Muscles better and nerves more.
i like your body. i like what it does,
i like its hows. i like to feel the spine
of your body and its bones, and the trembling
-firm-smooth ness and which i will
again and again and again
kiss, i like kissing this and that of you,
i like, slowly stroking the, shocking fuzz
of your electric fur, and what-is-it comes
over parting flesh… And eyes big love-crumbs,

and possibly i like the thrill

of under me you so quite new



- e.e. cummings